Todos temos o direito a chorar, a estar tristes e a lembrar quem partiu.
Quando se trata de um ente querido dizemos que partiu, desejamos que descanse em paz e detemo-nos numa despedida temporária de “Até um dia!”. A palavra morte é geralmente evitada e adiamos o “Adeus” definitivo, na esperança de um reencontro numa outra dimensão.
Hoje fala-se muito sobre a morte mas relativa a tragédias, violências, epidemias… mas não consideramos, verdadeiramente, ser atingidos por ela.
Mesmo sabendo que um dia a vida acaba, nunca estamos preparados para perder alguém.
Não vale a pena fugir, o luto não pode ser evitado. É um processo com que todos (ou quase todos) vamos ter de lidar na vida. Tanto a pessoa enlutada como aqueles que a rodeiam não devem negar, disfarçar o assunto ou fazer de conta que não se passou nada.
Mariana, 19 anos, perdeu o irmão num acidente de mota, 2 dias antes do casamento deste. “Principalmente pelos meus pais, mas também pela noiva do meu único irmão, não tive tempo para chorar, tratei de tudo. Não sei onde fui buscar forças.” Dizia-me, agora, com 38 anos e os olhos vermelhos e dilatados, mas sem chorar. Não consegue dormir tem pesadelos e, desde daquele dia, que toma antidepressivos e ansiolíticos.
O luto tem de ser percebido como natural, não negado ou disfarçado
Nunca diga a alguém que sofre: “Não chores, não fales disso, não fiques triste!”
O luto não é uma doença ou síndrome, é um processo natural e necessário de ser vivido que não deve ser, à partida, inibido por medicação.
No entanto, por vezes certas situações requerem mais do que apenas o tempo para ultrapassar.
Situações em que a pessoa bloqueia os seus sentimentos, continua o seu dia a dia como se nada tivesse acontecido.
Situações em que o luto se prolonga no tempo, por anos, seja por incapacidade em “deixar ir” quem faleceu ou por culpa em finalmente dizer adeus.
Nestes casos, o luto não está a ser feito. Não está a ser permitido que a dor venha e depois se desvaneça, não está a ser realizado o processo natural de catarse e poderá ser necessária ajuda profissional para ultrapassar a perda.
É importante salientar situações em que as crianças se deparam pela primeira vez com a morte aquando da perda de um familiar.
Frequentemente as crianças que são “protegidas” do conceito da morte, não são levadas a funerais, não são informadas que certa pessoa conhecida (mas não próxima) faleceu. Esta é uma prática frequente mas nociva, porque a criança acaba por enfrentar o que significa morrer apenas quando tal ocorre com os que lhe são próximos. Esta situação é ainda agravada quando os adultos, na convicção de que as crianças que não percebem o que significa morrer, não lhes dão o espaço para fazerem perguntas ou para fazerem o luto.
A pessoa enlutada tem direito à sua dor, à sua tristeza e tem de chorar e encontrar o seu próprio espaço para o fazer.
A forma e o tempo para lidar com o luto depende de muitos fatores. Perante uma perda tão significativa como é a morte, é necessário um grande respeito por si próprio para com a sua própria dor e receber o respeito dos outros porque a forma de lidar com o luto é diferente de pessoa para pessoa.
É necessário espaço para falar e ser ouvido, para relembrar momentos bons, reconhecer e admitir que sente saudade e que sente dor.

