A TIRANIA DAS NOTAS na Desgastante e Infindável Avaliação
“S’tora, isto vem pró teste?” “Sai no teste?“
I A partir do 2º período, estas perguntas passam de frequentes a sistemáticas em qualquer sala de aula do 2º e 3º ciclos e no ensino secundário. No início de outubro, o direito de qualquer adolescente e jovem a viver seguro e feliz é posto em causa, todos os dias, até ao final do junho ou julho. A meninice, a ingenuidade, a despreocupação e o sono descansado, depois de entrar no 5º ano de escolaridade, dão lugar a uma “atividade profissional”: interminável, stressante, a tempo inteiro, sem descanso, em sistemática avaliação de incontáveis e diferentes objetivos, com risco de insucesso, de humilhação pública e de desvalorização pessoal.
Pensa o leitor, “Que exagero!”
– Será? Vejamos!
No início de fevereiro, foram conhecidos os resultados de um estudo recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) que encontrou Exaustão e Tristeza em 35% dos 6.997 jovens inquiridos, inseridos em 387 turmas de 42 agrupamentos de escolas portuguesas. Margarida Gaspar de Matos, docente na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e coordenadora Nacional deste Estudo, diz que, neste estudo, “17,9% dos jovens sentem-se exaustos quase todos os dias, 12,7% manifestam problemas em dormir e 5,9% dificuldades em suportar tanta tristeza”, “Mais de metade dos adolescentes (51,6%) considera-se mau aluno e justifica a apreciação com o facto de não ter boas notas” e como causa desses maus resultados “87,2%, invoca excesso de matéria, 84,9% diz que esta é aborrecida e para 82% é difícil. Já 77%, aponta a avaliação como o principal problema”. O estudo revela ainda que, mais de metade (50,7%) diz não ter tempo para o lazer.
Esta obsessão pela avaliação e pelas notas está a pôr em risco a saúde física e mental dos nossos jovens e a comprometer o seu futuro.
É claro que viver, 24h sobre 24h, em stress gera forte ansiedade e estados de desespero. Sempre que recebo, em gabinete, um estudante, do ensino secundário ou do ensino superior, as queixas são semelhantes e, estes frequentemente não querem voltar às aulas. Têm ataques de pânico, terrores noturnos, medos inespecíficos, que os isolam em casa. Uns apresentam doenças físicas sem causa médica aparente, outros queixam-se de falta de força para estudar e de bloqueios na avaliação. Todos trazem o desespero (seu e dos pais) para tirar boas notas nos testes e nos exames.
O foco da escola está, portanto, no local errado, o que faz dele um problema em crescimento.
Na escola, a motivação deve estar focada no ato de aprender, não na avaliação.
A atenção tem de centrar-se na evolução e atualização dos conhecimentos, não nas notas.
Estudar deve ser um ato voluntário e prazeroso de aprender, não motivo de stress.
O aluno deve ser motivado a saber mais, não apenas o que vem para o teste.
O conhecimento serve para crescer e partilhar com os outros, não para decorar sem utilidade.
A meta da educação deve ser a felicidade e realização do aluno, não a exaustão e a tristeza.

